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Diana Mendes é a nova coordenadora pedagógica da SP Escola de Teatro; leia nossa entrevista

O ano de 2026 se inicia na SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco com grandes novidades, entre elas a chegada de Diana Mendes, a nova coordenadora pedagógica da Instituição.

Mendes traz uma vasta experiência, muito conhecimento e talento à Escola. Ela é pesquisadora afiliada ao CRACS e ao More-Than-Perfect na Universidade de Nova York e pós-doutora em Cultura Visual na New School, em Nova York, com financiamento do CNPq, Edital Atlânticas (2025). Em 2024, foi Visiting Scholar na Faculdade de Educação da Universidade de British Columbia, em Vancouver. Foi professora na UNIFESP, onde coordenou o Observatório da Violência Racial (CAAF). Integra o Grupo de Pesquisa em Direitos Humanos, Democracia e Memória do IEA-USP e o Núcleo de Estudos Africanos e Afro-brasileiros da UNIFESP.

Ela também é graduada, mestre e doutora em História pela USP, com estágio na EHESS, em Paris, e bolsa da Biblioteca Nacional do Brasil. Coordenou o Centro de Referência do Museu do Futebol-SP. Professora desde 1997, atuou do Ensino Fundamental e de Jovens e Adultos ao Ensino Superior, em cursos de História, Pedagogia e Serviço Social. Atuou como técnica em Políticas Públicas em Educação e é autora de materiais educacionais em Direitos Humanos, Cidadania e Diversidade.

Leia a entrevista completa com Diana Mendes:

Você tem uma carreira brilhante passando por instituições como a USP, a Unifesp, a New School e a Universidade de Nova York. O que mais te encantou no modelo da SP Escola de Teatro a ponto de você escolher este como o seu próximo desafio profissional?

Eu trabalho com educação desde 1997. Neste período, além de professora, colaborei na elaboração de currículos de ensino fundamental I e II, de ensino médio, de educação de jovens e adultos e de ensino superior, em faculdades particulares e universidades públicas. Ao entrar em contato com o modelo da SP Escola de Teatro, me encantei rapidamente, pois é raro encontrar modelos pedagógicos que combinem rigor teórico e liberdade prática, algo que a atividade de professora me mostrou ser fundamental. A Escola oferece alicerces seguros para a formação continuada de profissionais e estudantes, com base em princípios simples e factíveis, como o ensino não cumulativo, ao mesmo tempo em que garante espaço para a inovação ao se organizar em módulos formativos.

O que você mais espera encontrar na SP Escola de Teatro e, ao mesmo tempo, o que espera criar e transformar ao assumir a coordenação pedagógica?

Espero encontrar, ou melhor, já encontrei, um espaço de elaboração e inovação artística que não apenas forma centenas de artistas do palco por ano, mas também promove diálogos e interações com nossa cidade. Ao assumir a coordenação pedagógica da escola, espero, primeiramente, me integrar ao seu cotidiano institucional. Cada instituição é um ser único, com uma dinâmica própria, fruto da interação de pessoas também singulares que, por meio de seu trabalho, criam e recriam esse universo. Considerando minha formação em História, penso em oferecer contribuições, tendo em vista a partilha de histórias ainda pouco contadas das pessoas que fazem de São Paulo uma cidade que combina cosmopolitismo e enraizamento cultural.

Como você define o “sucesso” de um projeto pedagógico em uma escola de artes que é, por natureza, um espaço de experimentação, de risco e que trabalha sempre com a transformação e a mudança, nunca com o “estar pronto”?

Acredito que o “sucesso” do projeto pedagógico da SP Escola de Teatro precisa ser mensurado tendo em mente a complexa relação entre o objetivo de formar artistas e o modo singular como a Escola o realiza. Se à primeira vista esta relação parece simples, um olhar mais detido sobre o  trabalho cotidiano revela o quão desafiador é manter-se próximo aos princípios, sem torná-los rígidos demais, e desenvolvê-los junto a cada turma que passa pela Escola, sem perder a qualidade, a criatividade ou os pilares que garantem a unidade institucional. Nesse sentido, com base em outras experiências, arrisco dizer que, quanto mais próximas as relações cotidianas e as práticas formativas estiverem dos alicerces da Escola, isto é, de seus valores éticos de respeito à diversidade, equidade, transparência, mais liberdade para a experimentação a Escola vai alcançar.  Em verdade, creio que o sucesso da Escola já é uma realidade baseada nesse equilíbrio fundamental.

Durante sua vasta carreira, você atuou do Ensino Fundamental e EJA até o Ensino Superior, além de ter sido técnica em Políticas Públicas. Como essa visão tão ampla da educação brasileira ajuda a pensar a formação do artista do palco hoje?

Acredito que os anos dedicados à educação, seja lecionando, construindo currículos ou elaborando políticas públicas, me ajudaram a ver a formação escolar como um trabalho que se realiza sempre em equipe e em parceria com a sociedade, em vínculos com pessoas e instituições que a representam. Por isso, acredito que eu possa contribuir estabelecendo as condições para que a Escola, via cursos técnicos, de extensão e do programa de oportunidades, continue estimulando parcerias com instituições culturais, escolas de educação básica, entre outras entidades regionais, nacionais e internacionais. Já que é da cidade, esse organismo vivo, que as artes do palco encontram inspiração e repertório para a criação artística e a intervenção social, creio que a Escola seguirá promovendo encontros com experiências inspiradoras, inclusive na perspectiva das políticas públicas.

A metodologia da Escola prefigura “oito escolas em uma”, com uma forte integração entre áreas das artes do palco. Como a sua visão interdisciplinar, que transita entre História, Artes Visuais, Educação e Serviço Social, contribuirá para coordenar esse diálogo entre as diferentes linguagens técnicas e artísticas?

Vejo a interdisciplinaridade como o futuro das formas de conhecimento. Se ela ainda se afigura como um grande desafio, também se apresenta como um campo aberto à exploração. Para coordenar esse diálogo, pretendo me dedicar a garantir os tempos e espaços institucionais para que os saberes dos oito domínios das artes do palco, associados aos valores e princípios da Escola, circulem continuamente entre as pessoas que nela trabalham e estudam. Ao mesmo tempo, vou me dedicar a criar mediações para que artistas, educadores, pesquisadores e estudantes possam integrar novos saberes, oriundos de suas experiências individuais e coletivas, a esses saberes institucionais. Em verdade, essa dinâmica e os produtos dela decorrentes, ou seja, os próprios artistas formadores, os artistas formados tecnólogos e os trabalhos que produzem, já se fazem presentes na instituição e mostram os benefícios de assumir a interdisciplinaridade como eixo de trabalho.

Sendo você doutora em História e pesquisadora associada ao Grupo de Pesquisa sobre Democracia, Memória e Direitos Humanos do IEA-USP, bem como ao Núcleo de Estudos Africanos e Afro-brasileiros da Unifesp, como você enxerga o papel do teatro na preservação e na reconstrução da memória social? De que forma a coordenação pedagógica pode incentivar os estudantes a usarem o palco como um espaço para as narrativas historicamente marginalizadas?

Acredito que esse seja um dos pontos mais interessantes desse trabalho que se inicia. As artes do palco são lugares privilegiados para a recriação de histórias, sejam elas ficcionais ou aquelas que de fato aconteceram. O potencial de explorar experiências ainda pouco narradas, segundo critérios da produção artística, mas também da historiografia, é enorme e altamente desejável na contemporaneidade. Com o auxílio dos princípios da história pública, campo que se dedica ao estudo de novas formas de produzir e difundir o conhecimento histórico, é possível enriquecer o repertório das artes do palco e, ao mesmo tempo, delas receber contribuições de grande valia para dar vida a histórias que, em geral, ainda são negadas, esquecidas, apagadas ou invisibilizadas. Nossa história, em sua chamada versão oficial, ganharia muito teorica e metodologicamente ao contar com o suporte das artes em geral e, em especial, das artes do palco.  Acredito que inúmeras experimentações possam ocorrer nesse sentido a partir de parcerias da SP Escola de Teatro com universidades e instituições culturais.

Você é uma historiadora ultimamente dedicada a compreender a Cultura Visual. Como você imagina que esse seu olhar pode ajudar os novos artistas da Escola a contarem suas próprias histórias e as histórias do Brasil no palco?

Na linha da questão anterior, esse é, para mim, um campo fascinante de trabalho. A Cultura Visual pode ser resumida como o campo no qual se estuda como as imagens são produzidas, consumidas e, principalmente, como agenciam relações sociais em diferentes momentos históricos. Além de serem, antes de tudo, objetos materiais, as imagens nos ajudam a contar histórias! Ao tomarmos essas afirmações como ponto de partida, compreendemos melhor a importância da integração entre os oito domínios das artes do palco e destacamos o papel da cenografia, da iluminação e do figurino. Nesta perspectiva, elas são ainda mais fundamentais. Além de oferecerem suporte às demais áreas, carregam temporalidades e linguagens próprias. Quantas novas histórias podem ser contadas não só por meio de fotografias, pinturas, esculturas e outros tipos de imagens, a partir das quais tantos objetos integram a vida social?

A SP Escola de Teatro adota uma pedagogia sistêmica, baseada em territórios e na autonomia do estudante. Considerando sua experiência recente na Universidade de Nova York, na New School, nos Estados Unidos, e na University of British Columbia,  no Canadá, quais paralelos ou inovações você vislumbra para aprofundar esse modelo pedagógico em um contexto de diversidade brasileira?

Milton Santos, um dos pensadores que inspiram a pedagogia da SP Escola de Teatro, dizia que, muito embora a globalização e a internacionalização se apresentem como processos totalizantes e hegemônicos, a experiência humana é sempre e, antes de tudo, local, situada e afetiva. Nossas vivências dependem de nossos sentidos e afetos. O lugar, espaço qualificado pela ação e pelos afetos humanos, é, nesse sentido, também aberto a interações, cruzamentos e inovações, inclusive no tempo, como afirmava Toni Morrison. É por isso que ao nos deslocarmos por diferentes lugares, criamos oportunidades para ampliar e enriquecer a experiência. Ao brincar de “ser outro”, ativamos e aprimoramos nossos sentidos e, com eles, nossos valores e formas de interagir com as pessoas e com o mundo. Valido, então, a  prática de criar conexões e parcerias com escolas de teatro, instituições culturais, educação básica e universidades em outras cidades do Brasil e do mundo, como estratégia de enriquecimento individual e coletivo para estudantes e profissionais, e institucional para a SP Escola de Teatro.

A Escola possui o Programa Oportunidades, que foca no olhar humanista e na função do artista como cidadão. Vinda da coordenação do Observatório da Violência Racial na Unifesp, como você acha que podemos ampliar o trabalho da Escola nesse sentido, para que ela seja cada vez mais um espaço de proteção e fomento para corpos e narrativas historicamente vulnerabilizados?

Na SP Escola de Teatro, as artes do palco assumem uma dupla e importante função: garantir que os alicerces e práticas da Escola possibilitem a criação e a circulação de narrativas ainda não contadas pela chamada história oficial. Vejo com muita alegria essa possibilidade. Pois há toda uma gama de experiências, ações políticas, afetos e produções materiais que orientam, organizam o nosso viver e, no entanto, não encontram continente para retornar à narrativa ou ao símbolo, algo fundamental para os processos de subjetivação. A experiência no Observatório da Violência Racial me ajudou a compreender que, ao serem reconhecidas e narradas, as experiências de pessoas negras, que representam mais de 50% da população do país, geram impacto imediato na vida cotidiana. Ideias como justiça, liberdade ou ancestralidade deixam de ser abstrações para ganhar corpo em histórias de vida, como as de Ruth de Souza e de Abdias do Nascimento, por exemplo. Criatividade, resiliência e autodeterminação assumem forma em trabalhos como o realizado durante a Semana de Visibilidade Trans, promovida anualmente em janeiro pela SP Escola de Teatro. Outra oferta importante da Escola neste sentido são os programas de bolsas, de intercâmbio, além das outras possibilidades geradas pelo programa Oportunidades. O impacto positivo do programa apresenta uma série de indicadores para a manutenção dessa política pública e evidencia a viabilidade de sua replicação em outras instituições. Por todas essas razões, acredito que minha contribuição será não só a de promover encontros para alimentar essas ideias, como também a de buscar fomento nacional e internacional para a continuidade do programa.

Para encerrar, se você pudesse deixar uma mensagem de boas-vindas para estudantes, artistas docentes e todos os colaboradores, o que diria sobre esse novo ciclo que se inicia para nós?

Eu gostaria de dar as boas-vindas a toda a equipe da SP Escola de Teatro e a quem vem estudar e contribuir conosco, com um forte abraço e votos de que seja um ano cheio de boas novidades para todos nós!

+ Leia mais sobre os conceitos e alicerces pedagógicos da SP Escola de Teatro

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